19 abril 2012

"El Loco" Bielsa

Dava uma parte do meu ordenado para ter este gajo no Benfica (uma parte pequena, assim o custo de uma noite de Lux).


Tirado DAQUI:

Joaquín Sastre é contabilista em Córdoba, na Argentina. São 10h04 da quarta-feira da semana passada quando recebe uma chamada no telemóvel. “Número desconhecido”, aparece no ecrã. Assim que atende ouve uma voz serena. “Olá, Joaquín, sou o Marcelo Bielsa.” Sastre estremeceu, gelou, talvez à espera de perceber se seria mesmo verdade ou apenas uma brincadeira. Tinha enviado uma carta ao treinador do Athletic a 28 de Fevereiro, uma declaração de amor à filosofia e ao estilo que traz para o futebol. A resposta chegou pelo telefone. “Tratou-me com muitíssimo respeito e como se isso não bastasse ainda disse que me abrirá as portas do clube se um dia for a Espanha”, contou Sastre ao diário “Clarín”.
Bielsa é isto. Há um mês apareceu uma pessoa no treino à procura dele. Como não tinha tempo de a receber, pediu ao clube para tentar encontrá-la. Pouco depois lia-se no Twitter do Athletic: “Bielsa quer encontrar a pessoa que não pôde atender antes do treino de 13 de Março e convida-a a aparecer no fim próximo treino.” Um dia, numa visita a uma escola, foi cercado por miúdos que queriam um autógrafo numa caderneta de cromos. Como não tinha tempo, pegou nas cadernetas e prometeu voltar no dia seguinte para devolvê-las. Para surpresa das crianças, além da assinatura dele trazia também as de todos os jogadores do plantel. E um bónus: um bilhete para o jogo seguinte do Athletic. De vez em quando até chama alguns miúdos para o acompanharem nos treinos. E pede-lhes mesmo que dêem instruções aos jogadores.
A generosidade singular não fica por aqui. No fim de uma viagem entre o aeroporto e o hotel, por exemplo, convidou os polícias que escoltaram o autocarro da equipa a jantar com os jogadores. Bielsa gosta de fugir ao óbvio, ao estabelecido. Na infância e juventude desviou-se de duas tradições familiares. Em vez de ser adepto do Rosario Central, como o pai, optou pelos rivais da cidade – o Newell’s Old Boys. E renegou a linhagem de políticos e advogados para seguir um sonho: dedicar-se ao futebol. Com isso provocou uma pequena revolução familiar. A seguir iniciou outra, no desporto, que hoje está à vista de todos.
No início era jogador, um defesa mediano. Queria ser o melhor, mas ao fim de meia dúzia de jogos na equipa principal do Newell’s Old Boys percebeu-se que não ia longe. Tinha muita vontade, era muito esforçado. E ficava por aí. Por isso, o fim da carreira aos 25 anos não causou assim tanta surpresa. Largou as chuteiras, mas não esqueceu o futebol. Foi para a universidade estudar educação física, com um objectivo claro: conhecer e compreender o corpo humano ao máximo detalhe. Quando se sentiu preparado procurou Jorge Griffa, o seu mentor. “Chegou ao pé de mim e disse queria ser treinador. Tinha um grande desejo de aprender e de aplicar os conhecimentos e as experiências”, contou o antigo jogador e (na altura) treinador das camadas jovens do clube a uma televisão chilena.
Começou no Newell’s. Com Griffa aprendeu que o colectivo vale mais do que os talentos individuais. Uma das primeiras tarefas no clube foi uma viagem exaustiva pela Argentina à procura de novos talentos. Ao fim de 30 mil quilómetros trazia nomes como o de Gabriel Batistuta, que logo a seguir seria contratado. Em 1990, foi convidado para treinador principal dos seniores. Ganhou o Abertura no mesmo ano, o que o fez explodir de emoção. Parecia um louco, aos gritos no relvado: “Newell’s, carajo, Newell’s!”. Duas épocas depois também levou o Newell’s Old Boys à final da Libertadores.
Esteve no México (Atlas e América), voltou à Argentina (Vélez Sársfield) e ainda veio até à Península Ibérica para treinar o Espanyol. Mas redescobriu a grandeza com o convite para treinar a selecção do seu país. Estávamos em 1998. Com Bielsa, a Argentina terminou a fase de qualificação para o Mundial-2002 no primeiro lugar, com 12 pontos de vantagem sobre o Equador e 13 sobre o Brasil. Fizeram dele um deus, o Maradona dos treinadores, o homem que levaria a selecção ao primeiro título desde o reino de El Pibe, em 1986. Mas a fase final foi um fracasso – a Argentina não se apurou sequer para os oitavos-de-final.
TRANSFORMAÇÃO As críticas amarguraram-no. E nem a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2004 serviu de vingança. Bielsa despediu-se e desapareceu. Durante três anos esteve longe de tudo, no campo, perto de Rosario, apenas com a família. Coleccionou cerca de 30 mil cassetes com gravações de jogos de futebol. Recebeu (e rejeitou) propostas para treinar na Europa e na América do Sul. Reflectiu sobre o fracasso. Despiu-se da emoção que sempre transparecia. E só o convite para treinar o Chile, em 2007, o convenceu a regressar. Pegou numa selecção moribunda, com apenas uma presença em Mundiais no espaço de 20 anos, e levou-a até à África do Sul. O Chile mostrou um futebol puro, pouco dado a cinismos. Foi por isso que acabou eliminado pelo Brasil nos oitavos-de-final (3-0).
Entretanto a federação mudou de presidente. Bielsa prometera ir embora caso Jorge Segovia ganhasse as eleições. Quando se confirmou a vitória, o treinador saiu. Em Bilbau encontrou um novo desafio. No início teve dificuldades para impor uma filosofia feita com doses idênticas de disciplina, rebeldia, humildade, coragem, reflexão e carinho. Os jogadores sofriam e queixavam-se dos treinos longos e pesados. Não conseguiam assimilar os conceitos, as movimentações, a pressão. A primeira vitória apareceu apenas à sétima jornada, quando já havia espadas apontadas à cabeça do treinador.
Com tempo levou o Athletic à final da Taça do Rei. As eliminatórias da Liga Europa com o Manchester United e o Schalke foram a sublimação do estilo de um homem que vive num quarto de hotel (sem luxos) em vez de numa casa, que conduz um Seat Ibiza enquanto os jogadores se passeiam em carros de alta cilindrada. Quando há jogo em casa ao domingo, Bielsa marca a concentração da equipa para o meio-dia de sábado. Mas não fica lá, dorme no sítio de sempre.
Guardiola vê nele um mestre, considera-o o melhor treinador do mundo. “Os jogos deles [Athletic] são uma pérola”, diz Pep. A generosidade é um ponto comum aos dois técnicos. Ambos pensam o futebol com profundidade, treinam equipas que mais parecem saídas do futebol amador, pela alegria e paixão com que jogam. De Bielsa, Guardiola bebeu por exemplo o princípio de apenas falar aos jornalistas nas conferências de imprensa, mesmo que durem duas horas. A herança do técnico argentino está viva neste Barcelona. A revolução de Bielsa está viva no futebol.

4 comentários:

Capitão Santos disse...

Excelente texto! Mas o melhor vem no comentário da fonte do texto que copiei:

Por Pedro Mendonça (não verificado) | 19 Abril, 2012 - 13:09

Impressiona-me o que vocês descobrem sobre adversários de clubes portugueses em dias de competições europeias, neste caso um novo misto de Maradona, Dalai Lama e Yoda dos treinadores num dia importante para o Sporting. Bom artigo, péssimo timing. Lamentável.

Unknown disse...

Eu logo vou à bola. E vocês?!

iorda9 disse...

Que nada.

Este texto devia ser lido pelo jogadores e treinador do Sporting - só valorizava uma eventul vitória . a eles Sporting !!!

Germano Bettencourt disse...

Bom texto.

Mas esquece, vais levar com o JJ mais uma época.